Ônibus de viagem
Organizava papéis para fora de uma mala: rasgou alguns dias do calendário sem querer e percebeu que cada um cabia numa estação. Nem sabia por onde começar a repor.
É que o ano dos brasileiros começa no verão (no início ou no fim dele, a depender do quão carnavalesco se considere pela espera).
E o verão é calor, luz, suor, prazer, descanso, correria, cuidado, reencontro, distancia, respiro, caos, delícia, espuma, amarelo, ladrilho, pele. Tem estresse? Tem. Contudo, verão é presença do trópico. Reclama quem quer, aproveita quem pode, vive quem tá vivo, sofre e goza.
E aí depois? Depois vem o outono. Quem gosta do outono? Quem é o sujeito do outono, quem vive o outono? Penso em algumas respostas. Quem, afinal? De quem é o outono? Dos sensíveis? Dos cansados? Dos descansados? Intermedios, intermeios, conversas, despertar dos sonhos ou sonhar desperto? Será que não é no outono que mora um masculino feminino? Ou a reflexão...?
Brisa. Preparação. Pássaro e silêncio. O amarelo vira dourado bege, cheiro de café, o ar avisa que o futuro chegou. E você pensa bastante no quanto esse futuro presente metamorfoseou desde o início do verão... Amargo doce, veio com ar diferente d'ali quando ele primeiro existiu (e você surrupiou a palavra “fantasia” entre dentes frescos), ali primeiro assim feito um jovem bibliotecário despercebido dos demais. Um cansaço calmo, resignado e até bem satisfeito.
Bom. Esse era d’um certo desconforto confortável. Então... O inverno.
O sujeito que o outono apenas insinua no fundo dum suspiro, esvanecendo
ao contrário, veio de pouco tato e em pouco chegou com presença.
O inverno poupa palavras: seco. Quase grosseiro. Esse é tão forte quanto qualquer outra estação poderia ser quando diz: posso ser ternura ou agonia. Posso ser sonho ou tremor, descanso ou dificuldade, felpos ou ferpas, caldos mornos ou dores fibromiálgicas. Depende. Onde você está?
O sujeito, o mundo... Tudo importa agora. Segue. E então agosto diz tudo que precisa dizer:
Em mais um pouco, primavera. O mundo conspira. O sujeito se vira. Tanto já fez...
E agora nada, absolutamente nada contém a primavera; o diabo (lindo diabo) da primavera. Esse diabo é um anjo. Ah sim. Não narro pregação, sentido de engano e nem tentação: é realmente paz e liberdade, é um diabo puro, puro e fresco, é uma nudez confortável. Lindo diabo – por sua teimosia – angelical, lindo anjo do vida, da feliz avidez.
(Pausa para que uns bons indignados, bem capaz sem afeto, gritem nos templos. Feito? Prossigamos). Primavera pinica vida: descompresso clichê. No tempo desse texto ainda aguardo, mas sinto que já estou na primavera. E eu, que sou mulher? A força descontida do novo é mais importante que nunca; aqui, existo em favor do meu próprio lábio unido, rio eterno - como existi em outras estações, mas não me viram.
Ramos vencem paredes, luzes fazem respirações, lágrimas e beijos criam sorrisos, seus filhos. Ademais que temos que votar. Correr. Pensar. Torcer. Amar. Nos preparar. Um ou outro arrisca sentir – cuidado com isso!. Quem sabe voltar atrás naquela sintaxe do coração do mês de abril, percebê-la. E continua em frente (quem volta só deveria voltar para seguir). E eis que tanto percebemos quanto criamos quanto esbarramos em um tanto infinito de limites e finais, e notamos – não sem um suspiro do peito – tudo isso para ter um pouco de livre corpo, de desejo, respirar um tanto macio de fogo, tremular uma pétala, ir mais adiante na paz. Floração. Pressão torácica de que há tanto olfato e cor no mundo.
"Que bonito!" - qual o tom? A testa as vezes dá um galo, mas o tórax ri com o sol e o mamilo arrepia com o poente. Engraçada a primavera. Os tons são vários.
Eu não lembrava, nem sonhava que ela chegaria para mim assim.
Eu sei por que: entre erros e acertos a gente se explica. A parte que ninguém explica é que nessa espiral (cada dia mais desenvolta e sensível) existe uma benção mortal de repetição. Aí vê: tanta gente que vai ter chance de errar tudo de novo, de um jeito completamente diferente. Tudo bem. Também, ao mesmo tempo, pode existir um pouco mais... Assim, meio rosa laranjado, desvanecido ao contrário. É lindo. São humildes tentativas e belezas em coisas frescas, essas que vem fora esse texto fechado de 500 anos atrás e repetido. São essas as da poeiesis.
Maravilha: maldição abençoada. É do humano saber que você vai enxergar sua paz só consigo bem perto. Senão vira calopsita. (É sério). Assim, de pertinho, que veja as rachaduras e o prazer. Aí vá, se precisar usando até o ordinário do espelho:
Perto.
Mais um pouco...
Isso! Aí.
Vive. Goza, voa.
Não, passou!
Volta.
Isso. Agora tá bom...
Ih, errou de novo. Mais.
Mais perto.
Ah! Isso mesmo...
(Não! Perdeu... Volta de novo.)
Começa (como assim, começa?) o único sempre: a fluidez de escolhas e buscas no olhar de uma paisagem. Tudo porque quem vive uma vez, vive de novo. No mínimo, sonha.

Comentários
Postar um comentário