Já me disseram que tudo começa no princípio; também disseram que princípios não se constroem em mesa de bar; como disseram que se constroem, sim. Ora, já me disseram coisa para caralho, com o perdão da palavra. E, no fim, decidi que quem diz e faz sou eu: e do meu jeito. Imprimo meu ser e assino. Assinado eu, assinado quem?! Somos seres assinantes, e enquanto nomes, para mim, às vezes são apenas e somente nomes, outras vezes são muito mais que isso. Se analiso discursos, nem sempre conheço tudo o que encontro; porém, quando é necessário, me procuro.

Na época em que matutava criações escritas e uma assinatura, em mesa de bar ouvi pela primeira vez algo que me caiu como uma luva. No terraço do Maletta, eu estava em fase boa: muitos planos, um fósforo aceso no peito, prestes a mudar de cidade (não sabia ainda, mas me aguardavam algumas noites frias do curso noturno ou alegrias da bochecha vermelha com o álcool no forró). À minha frente, algumas amizades e uma comanda cheia – preocupante!. O ar cheirava a molho. Ao meu lado se sentava meu dengo. 

- Foi engraçado, olha só...

Surgiu no engraçado e depois tornou-se um pouco mais complexo, mas bonito. Quem falava...

...CLIQUE AQUI PARA LER A CRÔNICA DE ABERTURA E PRINCÍPIO DA LEBIsCA

Princípio

 

Já me disseram que tudo começa no princípio. Também disseram que princípios não se constroem em mesa de bar. Como disseram que se constroem, sim. É, já me disseram coisa para c-ralho, com o perdão da palavra. E, no fim, decidi que eu quero dizer. E do meu jeito, imprimo meu ser e assino. Mas assinado eu, assinado quem?! Somos seres assinantes; e enquanto nomes, para mim, às vezes são apenas e somente nomes, outras vezes são muito mais que isso: se analiso discursos, nem sempre reconheço tudo o que encontro; porém, quando é necessário, me procuro.

Na época pensava criações escritas e buscava uma assinatura.

Em mesa de bar ouvi pela primeira vez algo que me caiu como uma luva: o terraço do Malleta me tinha em fase boa: tantos planos com um fósforo aceso no peito, prestes a mudar de cidade (e não sabia ainda, mas me aguardavam algumas noites frias ou alegrias da bochecha vermelha com o álcool e o forró). Ali, ainda nada disso, tinha em minha frente algumas amizades e uma comanda cheia – preocupantemente cheia. O ar cheirava a molho. Ao meu lado se sentava meu amor. 

- Foi engraçado, olha...

Quem falava, do outro lado da mesa, era professora: do mesmo nome que eu, um amor de pessoa. E foi a narração de sua aluna que rendeu a palavra com a qual me vesti. Não me lembro da idade da criança do papo; mas disse minha xará que, por qualquer motivo, surgiu o assunto velho sobre os cabelos longos ou curtos das meninas, os apontamentos ingênuos sobre gostar de meninos ou meninas. E ela disse que ouvia, quando, com um olhar distante, e num suspiro de reflexão infantil, séria, a menina falara:

- É, tia.... Eu acho que ‘tô virando “lebisca”.

Aqui não me importa se era ou não, isso ela descubra e ria e chore mais para frente. Mas nos divertimos: tão ingênua, tão fofa. Talvez tenham dito para ela que não era bem assim? Mas tudo começando com cortes de cabelo! O melhor: sequer saber bem a palavra, sabia. A ingenuidade era de uma meiguice sem fim. Fosse ou não fosse... Mas “lebisca”! Rimos. Pelo que me lembro do contado, ela assegurou que estava tudo bem ter o cabelo cortado, e a criança esqueceu em segundos. 

Ri comigo mesma e minhas lembranças.

[ Ri de muitas coisas naquela noite, incluindo, não sei como, de deboches ao olhar um literal site de juízo final pelos pecados: um confessionário aberto – você confessa, o outro clica em inferno ou céu. Todo mundo pode brincar de Deus. Recomendo: promete aumentar o nível de dopamina, se entender a graça do esdrúxulo.]

Na identificação com a menina, pensei num Quem Nunca: dentre sáficas, quem nunca...: Olhou para o nada, ou para o travesseiro, ou para alguém. Respirou fundo. E concluiu, meio sem saber o que fazer com a ideia: "é... Acho que sou... Talvez eu seja...". E talvez eu, enquanto risse, também me lembrasse dos meus nove anos, com um clipe de música e eu sem saber para onde olhar. Ou das afetividades fortes com uma “só melhor amiga”. Das poesias e de olhar outra dormindo, com carinho no peito. Ou de quando recortava imagens específicas de revistas quando era criança – meus pais culparam meu irmão mais velho, naturalmente. Naturalmente?

[ Eu poderia postar uma confissão naquele site, se me importasse. Quando mais nova, passei ao lado da estante de casa, vi numa pilha de livros quatro revistas... Playboy. De pouco conhecimento em mãos, pensei em abri-las, eu e meus treze anos. Não o fiz, pensando: Deus me purifique desses pensamentos, ah não, assim, essa não...]

Continuei ouvindo e rindo; e, enquanto sentia meu joelho encostar no da mulher ao meu lado, contavam mais casos:

- Não acredito que você já beijou essa boca.

- Olha... Você já beijou essa boca, tá falando o que?

Os rebuceteios. Desconversei e reclamei dos preços, mas logo me esqueci. No meio daquelas mulheres me percebi em mim. Não que eu já não houvesse percebido antes: mas existir é uma luta, volta e meia ainda me retesava e me cobria com fugas. (Eis mais um Quem Nunca). Era óbvio que me preocupava demais com quem incomodaria. Engoli um punhado de batatas fritas e me saciei em paz ávida dando de ombros. 

[“Eu nunca!”, disse alguém em alguma outra mesa. Assim não abaixou o dedo no jogo, não tomou a dose de cachaça. Mentira: só não tinha estômago para engolir a queimação ao vivo. Não que seja problema. Cada um no seu tempo e espaço. Afinal o PT do meu segundo turno nunca foi o de perda total. 

...“Eu já”.]

Então naquele dia sorri sem cuidado, sem as preocupações e queimações. Depois, me vi pensativa, e não acho que foi a caipirinha que causou no peito a queimação de uma estranhamente pleno e pacífico tom de ansiedade. Aliás, para descrever esse, caberia um texto inteiro – que até tenho escrito, virá um dia. Vejamos: afago-vontade-vida-agudo-desejo-amor-brisa-vento-grito-explosão-tenra-pontada. Um sopro arrepiante de uma pulsão de vida de jeito caótico no peito, e, depois de um tempo, você querendo se aquecer no macio de uma blusa. No moletom d’Ela, um peito macio e morno perfeito. Um estalo: é isso. Fui no embalo de olhar para a rua e ser – não apenas sentir, mas ser –o vento da vontade e busca, do não-fechado humano. Por bobo que talvez isso soe, me sentia assim quando saí do bar, e também assim dormi em paz com Ela: eu, a lésbica… Graças a Deus. Começava o fim de semana.

Segui pensando por mais dois dias (neuroses obsessivas). Estava feliz naquele tempo: talvez por já sentir que havia encontrado o que queria, ou que nunca encontraria nada - o que é perfeito, e abre o criativo. Apenas passados os dois dias, porém, terminando um texto, aceitei a inspiração do caso para o nome, sentindo um encaixe na mudança do S da lebiSca. Na singularidade de mudar um termo que já é dado e moldado, pude saber que, não num pacote normativo global, existem inúmeras lebiScas. Antes disso, tantas pessoas; e eu, metida a escritora… Pensei mesmo bastante: será que Débora ficaria brava? Fui ao analista. Brava? Qual Débora, a xará ou eu? Cheguei a hesitar, mas, sendo isso base da massa de “eu”, e como tudo o que vai no bolo tem que estar na receita, ao fim arrisquei essa escrita.

E se for na ausência de sapatonices, não me finda o ser. É que em cada fração (como nas conversas de mesa de bar), muito além de beijos, sexâncias, amores, políticas, havia e há em mim a existência que vivo. E porque vivo... Vivi: memórias e futuros, impulsos. Necessidades. Gritos.

Também narrei e amei mulheres; ou fiz a carta de um artista a Deus; uma poesia ou texto enfurecido com o presidente; e mesmo quando escrevo sobre um gato na janela e “não toco nesses assuntos”, está e estou ali. Geralmente em caligrafia de um caderno pessoal, me enxergo, assim, com um “assinado: lebiSca .”


                                          

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Da fantasia

Confessei na mesa de bar