Já me disseram que tudo começa no princípio; também disseram que princípios não se constroem em mesa de bar; como disseram que se constroem, sim. Ora, já me disseram coisa para caralho, com o perdão da palavra. E, no fim, decidi que quem diz e faz sou eu: e do meu jeito. Imprimo meu ser e assino. Assinado eu, assinado quem?! Somos seres assinantes, e enquanto nomes, para mim, às vezes são apenas e somente nomes, outras vezes são muito mais que isso. Se analiso discursos, nem sempre conheço tudo o que encontro; porém, quando é necessário, me procuro.

Na época em que matutava criações escritas e uma assinatura, em mesa de bar ouvi pela primeira vez algo que me caiu como uma luva. No terraço do Maletta, eu estava em fase boa: muitos planos, um fósforo aceso no peito, prestes a mudar de cidade (não sabia ainda, mas me aguardavam algumas noites frias do curso noturno ou alegrias da bochecha vermelha com o álcool no forró). À minha frente, algumas amizades e uma comanda cheia – preocupante!. O ar cheirava a molho. Ao meu lado se sentava meu dengo. 

- Foi engraçado, olha só...

Surgiu no engraçado e depois tornou-se um pouco mais complexo, mas bonito. Quem falava...

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Confessei na mesa de bar

 

- ‘Cê nem ‘tá bebendo, hoje...

Minha amiga olhava para mim com ares de questionamento. Tinha no braço uma tatuagem ainda coberta pelo plástico.

- Claro que sim, aqui – ergui um copo de drink, os gelos marinando em restos líquidos irritantemente difíceis de sugar com o canudo - Só que hoje tenho pouco dinheiro, então... Na verdade meu dinheiro acabou; então é isso, agora eu “não tô bebendo”, mesmo, só dá para pagar esse.

Era noite, nem início nem fim, mas o meio, e num sábado. Aquele meio em que o álcool começa a descer sem que se perceba. Os dedos batucando na mesinha de bar, os risos se misturando com ansiedades, o prazer da companhia de uns poucos amigos exasperando quaisquer bobagens e coisas da vida. Olhei ao redor e me lembrei de como todos meus amigos eram bonitos, insegura com minha própria aparência. Não devia ter passado lápis de olho, pensei, ‘tá tudo borrado.

- E você, Caetano?

Nem respondeu. A cabeça estava virada para o além, os olhos vidrados Deus sabe em que pensamento paralelo.

- Caetano? Gay ‘tá em outra dimensão...

- Uhm? – ele se voltou – oi, quê, oi. Quê?

- Beber.

- Vou não. Saí dessa vida.

- Ele bebeu antes de vir, olha a carinha.

- Eu ‘tô é com sono – deu de ombros –, só. Não bebo. Só cheque mate.

- Sei...

- Eu não bebo...

- Aham...

- Não bebo. O. – fez dos lábios um formato de deboche esticado ao fim.

- Tem cheque mate aí.

- Eu... Tô considerando. Caro.

- Rodada dupla...

- Caro.

Revirei os olhos. A mesinha de madeira na calçada do Maletta, ao lado de várias outras, era composta de cinco de nós. Cinco, sendo parte do grupo dos, agora crescidos, amigos e colegas de uma adolescência bizarra, mas de sempre. Um pequeno espaço na calçada para bebermos, livre de heteroafetivos nada contra, até tenho amigos que são... Das ironias que espero que entendam.

Desceram mais uma rodada dupla que avisei à mesa que não ia pagar. Já estava lisa àquela hora. Amigo é para isso: ao fim da noite ganhei até dinheiro emprestado para o motel. Sem B.O.: o que recebi converti em desconto num livro a ser vendido.

- Tudo para ajudar uma amiga – (eu não tinha lugar para ficar a sós com minha menina e estava subindo pelas paredes) – sei como é sofrer por muito tempo sem conseguir trep...

- Valeu. ‘Tô até emocionada – brinquei.

- Aproveite.

Deve ter sido por esse assunto: quando me dei conta, o tema da conversa era sexo. Sempre chega esse momento da noite.

-... lá assim, e é bom demais. Me sinto incrível. – o homem finalizou uma narrativa inteira.

Abanou para o lado minha fumaça, e eu debochei de gesto.

- Mas por que, se você não for dar? Se não vai dar, por que importa?

- Mas é exatamente por isso. Só porque sim... Só porque, sei lá, o prazer de segurar na mão enquanto eu faço, eu que estou fazendo mas é alguém com o negoço maior que o meu.

- O “negoço”... – ri e recebi uma enxurrada de sinônimos.

- Engraçado que não tem tanta palavra assim pra b...t. , né.

Duas respostas simultâneas: “Ah, mas tem” e “é porque p... é mais gostoso” (duvidei).

- Não sei onde... E tem? Digo, claro que tem, mas tantas assim?

Listamos as nomenclaturas e travamos no caminho.

- Viu, é pouco; eu tenho certeza que tem pouco, porque uma vez eu e uns amigos no ensino médio fizemos uma lista.

- Vocês fizeram uma lista?

- No grêmio da escola.

- Que doideira.

- É.

Brindamos em silêncio.

- Falando nisso, lembra no início do ensino médio, quando a gente achava que era hétero?

- Você né, eu nunca achei.

- ah, nunca?

- Nunca não, mas no ensino médio já dava para sacar. Só tinha a negação.

- Mas é isso. Eu, namorando ou de transas com homens e incapaz de ter um orgasmo ou gostar da coisa: “mas é claro que gosto de homens, é assim mesmo”.

- Mas como que funcionava isso?

- Não funcionava – ri – esse é o ponto.

Caetano estava quieto, na dele, ouvindo, me lançando olhares. Caetano e eu, no passado, já tínhamos... É.

Apareceram fotos antigas.

- Nossa, mas você namorou muito homem, Débora – Caetano continuava olhando enquanto me estranhavam – Digo, namoro ou rolo, e tal. Quê que cê tava arrumando?

- Eu me pergunto isso todo dia.

“Rindo para não chorar”, ou ainda, “chorando internamente”, quem sabe “rindo de nervoso”.

- Nossa, ‘peraí! Você namorou O Caetano! É mesmo... Nossa...

- Foi na nona série – ele retrucou.

- Por uma semana e meia, quinze dias sei lá – me defendi também – e a gente nem se beijou.

- Vocês não beijaram?! Uai, então ‘cês nem namoraram.

- É, algo assim mesmo. A gente estava namorando, mas não estava, mas estava, e parecia que estava, mas não estava. Na realidade, ele começou a fugir de mim depois que a gente começou a namorar!?! – lancei para ele um olhar.

- Era pânico de gay.

- Não era, não – ele se defendeu – era pânico de tomar soco na cara mesmo, ela me dava medo. E eu não sou gay.

- Bi né.

- É.

- Engraçado que a gente acabou beijando e transando depois de tudo isso. “Ok, não estamos juntos, somos só amigos. Agora pode”.

Risos.

- Mas em que época você se descobriu?

- Você sabe... Naquela época com a Juba.

- Nossa, é mesmo... Nossa! A Juba.

- É. E aí depois continuei insistindo em homens por um tempo, e nunca gozei, e era patético e etcétara e tal. Meu, essa batata frita não chega? Que fome do c...

- Quê? Como assim?

- Quê o que? A batata frita? Você já viu?! Ela vem num caminhão, num caminhãozinho! Eu vim aqui só para isso.

- Não, porra. Antes disso. ‘Cê nunca gozou? – estranhou.

Cocei a nuca.

- Até pouco tempo atrás, não. Com homens, nunca. Sempre foi uma coisa... Meio ruim. Ou muito.

Todos olharam para Caetano. Ruborizei-me, ciente então de que vacilara. Ah, a mania de exposição! Eternamente agradecida à caipivodka.

- Nossa... Valeu, hein – ele disse, rasgando um sorriso sem jeito – Bom saber.

- Calma – engasguei – desculpa! – ri – Não é você, sou eu... – gracejei em tom de atuação de filme, fazendo palhaçada.

- Mas literalmente é isso né. – a amiga socorreu.

- É. Não-é-você-sou-eu mesmo. Eu, a sapatão teimosa em não ser.

Conversamos mais um pouco sobre não gozâncias. Confessei as transas-problemas, incômodos, gafes, os causos, os deboches, os estranhamentos, listei algumas fofocas e pessoas péssimas de cama ou meus vacilos; o de sempre. Confessei tudo na mesa do bar.

- Mas nunca gozou? – Caetano insistia na ferida de seu ego – Nunca, nunca? Nunquinha mesmo?

-... não...

- Mas pelo menos era bom?

- Uma ou duas vezes foi até gostosinho, acho. Mas...

-... Mas nunca gozou. Com homens. – e completou – Comigo.

Dei de ombros num sorriso triste e sem jeito.

- Não.

Ele apenas assentiu em silêncio, franzindo os lábios, a face do “foda, né” ligeiramente ressentido com a descoberta.

Eu, comigo mesma, fiquei frente ao fantasma de outrora; aquele de meu próprio desrespeito a mim. Já sobre antigos medos, desejos, questões: recordei-me de anos com corpos na cama com os quais pensei “talvez eu só nunca tenha orgasmos. Talvez isso que sinto já seja um sexo bom, e eu que seja exigente demais e não ache bom o suficiente. Talvez esse incômodo seja normal. Talvez eu devesse insistir mais. Talvez essa vontade de ‘ai, sabe, acaba logo aí, meu filho, que saco’ seja coisa minha e eu que não goste de sexo. Talvez orgasmo nem exista. Talvez sexo seja esquisito assim mesmo, talvez eu esteja fazendo algo errado, talvez essa sensação parada neutra e vazia na cama com ele em cima de mim todas as vezes seja normal, talvez se eu continuar gemendo e fingindo melhore, talvez esse desconforto com homens não seja nada, é, talvez eu esteja fazendo algo errado, mesmo”; e frente a tudo isso, pensei e disse:

- Foda mesmo.



 Ass.: lebiSca.

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