Confessei na mesa de bar
- ‘Cê nem ‘tá bebendo, hoje...
Minha amiga olhava para mim com
ares de questionamento. Tinha no braço uma tatuagem ainda coberta pelo
plástico.
- Claro que sim, aqui – ergui
um copo de drink, os gelos marinando em restos líquidos irritantemente difíceis
de sugar com o canudo - Só que hoje tenho pouco dinheiro, então... Na verdade
meu dinheiro acabou; então é isso, agora eu “não tô bebendo”, mesmo, só dá para pagar esse.
Era noite, nem início nem fim,
mas o meio, e num sábado. Aquele meio em que o álcool começa a descer sem que se perceba. Os dedos batucando na mesinha de bar, os risos se misturando com
ansiedades, o prazer da companhia de uns poucos amigos exasperando quaisquer
bobagens e coisas da vida. Olhei ao redor e me lembrei de como todos meus amigos
eram bonitos, insegura com minha própria aparência. Não devia ter passado lápis de olho, pensei, ‘tá tudo borrado.
- E você, Caetano?
Nem respondeu. A cabeça estava
virada para o além, os olhos vidrados Deus sabe em que pensamento paralelo.
- Caetano? Gay ‘tá em outra
dimensão...
- Uhm? – ele se voltou – oi, quê,
oi. Quê?
- Beber.
- Vou não. Saí dessa vida.
- Ele bebeu antes de vir, olha a
carinha.
- Eu ‘tô é com sono – deu de
ombros –, só. Não bebo. Só cheque mate.
- Sei...
- Eu não bebo...
- Aham...
- Não bebo. O. – fez dos lábios
um formato de deboche esticado ao fim.
- Tem cheque mate aí.
- Eu... Tô considerando. Caro.
- Rodada dupla...
- Caro.
Revirei os olhos. A mesinha de
madeira na calçada do Maletta, ao lado de várias outras, era composta de cinco
de nós. Cinco, sendo parte do grupo dos, agora crescidos, amigos e colegas de
uma adolescência bizarra, mas de sempre. Um pequeno espaço na calçada para
bebermos, livre de heteroafetivos – nada contra, até tenho amigos que são...
Das ironias que espero que entendam.
Desceram mais uma rodada dupla
que avisei à mesa que não ia pagar. Já estava lisa àquela hora. Amigo é para
isso: ao fim da noite ganhei até dinheiro emprestado para o motel. Sem B.O.: o
que recebi converti em desconto num livro a ser vendido.
- Tudo para ajudar uma amiga – (eu
não tinha lugar para ficar a sós com minha menina e estava subindo pelas
paredes) – sei como é sofrer por muito tempo sem conseguir trep...
- Valeu. ‘Tô até emocionada –
brinquei.
- Aproveite.
Deve ter sido por esse assunto:
quando me dei conta, o tema da conversa era sexo. Sempre chega esse momento da
noite.
-... lá assim, e é bom demais. Me
sinto incrível. – o homem finalizou uma narrativa inteira.
Abanou para o lado minha fumaça,
e eu debochei de gesto.
- Mas por que, se você não for
dar? Se não vai dar, por que importa?
- Mas é exatamente por isso. Só
porque sim... Só porque, sei lá, o prazer de segurar na mão enquanto eu faço, eu que estou fazendo mas é
alguém com o negoço maior que o meu.
- O “negoço”... – ri e recebi uma enxurrada de sinônimos.
- Engraçado que não tem tanta
palavra assim pra b...t. , né.
Duas respostas simultâneas: “Ah,
mas tem” e “é porque p... é mais gostoso” (duvidei).
- Não sei onde... E tem? Digo,
claro que tem, mas tantas assim?
Listamos as nomenclaturas e
travamos no caminho.
- Viu, é pouco; eu tenho certeza
que tem pouco, porque uma vez eu e uns amigos no ensino médio fizemos uma
lista.
- Vocês fizeram uma lista?
- No grêmio da escola.
- Que doideira.
- É.
Brindamos em silêncio.
- Falando nisso, lembra no início
do ensino médio, quando a gente achava que era hétero?
- Você né, eu nunca achei.
- ah, nunca?
- Nunca não, mas no ensino
médio já dava para sacar. Só tinha a negação.
- Mas é isso. Eu, namorando ou de transas com homens e incapaz de ter um orgasmo ou gostar da coisa: “mas é claro que gosto de homens, é assim
mesmo”.
- Mas como que funcionava isso?
- Não funcionava – ri – esse é o
ponto.
Caetano estava quieto, na dele,
ouvindo, me lançando olhares. Caetano e eu, no passado, já tínhamos... É.
Apareceram fotos antigas.
- Nossa, mas você namorou muito
homem, Débora – Caetano continuava olhando enquanto me estranhavam – Digo,
namoro ou rolo, e tal. Quê que cê tava arrumando?
- Eu me pergunto isso todo dia.
“Rindo para não chorar”, ou
ainda, “chorando internamente”, quem sabe “rindo de nervoso”.
- Nossa, ‘peraí! Você namorou O
Caetano! É mesmo... Nossa...
- Foi na nona série – ele
retrucou.
- Por uma semana e meia, quinze
dias sei lá – me defendi também – e a gente nem se beijou.
- Vocês não beijaram?! Uai, então
‘cês nem namoraram.
- É, algo assim mesmo. A gente estava namorando, mas não estava, mas estava, e parecia que estava, mas não estava.
Na realidade, ele começou a fugir de mim depois que a gente começou a namorar!?!
– lancei para ele um olhar.
- Era pânico de gay.
- Não era, não – ele se defendeu
– era pânico de tomar soco na cara mesmo, ela me dava medo. E eu não sou gay.
- Bi né.
- É.
- Engraçado que a gente acabou
beijando e transando depois de tudo
isso. “Ok, não estamos juntos, somos só amigos. Agora pode”.
Risos.
- Mas em que época você se
descobriu?
- Você sabe... Naquela época com a Juba.
- Nossa, é mesmo... Nossa! A Juba.
- É. E aí depois continuei
insistindo em homens por um tempo, e nunca gozei, e era patético e etcétara e
tal. Meu, essa batata frita não chega? Que fome do c...
- Quê? Como assim?
- Quê o que? A batata frita? Você
já viu?! Ela vem num caminhão, num caminhãozinho! Eu vim aqui só para isso.
- Não, porra. Antes disso. ‘Cê
nunca gozou? – estranhou.
Cocei a nuca.
- Até pouco tempo atrás, não. Com
homens, nunca. Sempre foi uma coisa... Meio ruim. Ou muito.
Todos olharam para Caetano.
Ruborizei-me, ciente então de que vacilara. Ah, a mania de exposição!
Eternamente agradecida à caipivodka.
- Nossa... Valeu, hein – ele
disse, rasgando um sorriso sem jeito – Bom saber.
- Calma – engasguei – desculpa! –
ri – Não é você, sou eu... – gracejei em tom de atuação de filme, fazendo
palhaçada.
- Mas literalmente é isso né. – a
amiga socorreu.
- É. Não-é-você-sou-eu mesmo. Eu, a sapatão teimosa em
não ser.
Conversamos mais um pouco sobre
não gozâncias. Confessei as transas-problemas, incômodos, gafes, os causos, os
deboches, os estranhamentos, listei algumas fofocas e pessoas péssimas de cama
ou meus vacilos; o de sempre. Confessei tudo na mesa do bar.
- Mas nunca gozou? – Caetano
insistia na ferida de seu ego – Nunca, nunca? Nunquinha mesmo?
-... não...
- Mas pelo menos era bom?
- Uma ou duas vezes foi até gostosinho, acho. Mas...
-... Mas nunca gozou. Com homens.
– e completou – Comigo.
Dei de ombros num sorriso triste
e sem jeito.
- Não.
Ele apenas assentiu em silêncio,
franzindo os lábios, a face do “foda, né”
ligeiramente ressentido com a descoberta.
Eu, comigo mesma, fiquei frente
ao fantasma de outrora; aquele de meu próprio desrespeito a mim. Já sobre antigos medos, desejos, questões: recordei-me de anos com corpos na cama com os quais pensei “talvez eu só nunca tenha orgasmos. Talvez
isso que sinto já seja um sexo bom, e eu que seja exigente demais e não ache
bom o suficiente. Talvez esse incômodo seja normal. Talvez eu devesse insistir
mais. Talvez essa vontade de ‘ai, sabe, acaba logo aí, meu filho, que saco’ seja
coisa minha e eu que não goste de sexo. Talvez orgasmo nem exista. Talvez sexo
seja esquisito assim mesmo, talvez eu esteja fazendo algo errado, talvez essa
sensação parada neutra e vazia na cama com ele em cima de mim todas as vezes
seja normal, talvez se eu continuar gemendo e fingindo melhore, talvez esse
desconforto com homens não seja nada, é, talvez eu esteja fazendo algo errado,
mesmo”; e frente a tudo isso, pensei e disse:
- Foda mesmo.
Ass.: lebiSca.

Comentários
Postar um comentário