Gozo de lembranças
Calores demais. Só não sei se cabe dizer que foi “mais que deveria” quando afinal não devo nada a ninguém – exceto, talvez, a ela. E olhe lá. O gozo de lembranças martela a cabeça de quem sabe que o melhor que já pôde sentir foi amor e corpos fluidos.
Ela leu meu corpo antes
de ler meus versos; eu achei tudo bem. Isso porque também muito antes de ter coragem
de ceder um livro, cedi um olhar perdido. Aquele olhar que trocamos, junto de uma meia
bochecha suspensa, face de atração safada que surgiu vendo uma deusa tirar
a blusa. Nos sons, os dedos escorregam tão felizes quanto a boca. Da janela entrava só
meia luz da tarde. E os vigias cristãos cheios de santos deviam estar longe,
numa casa de madeira velha em um sítio distante.
No quarto não tinha santo, só nós duas bonitas de carne. Eu tinha chegado meio sem jeito e não sabia nem onde pôr a bolsa; já ela me fitava com convites brilhantes que tinham ares de ordem. Claro que tentei jogar papo fora e percebi que estava nervosa – vá entender por quê. Hoje talvez eu entenda melhor, já que ela era a rainha cuja satisfação me assombrava, corri muito. Pode ser a sina de pôr no colo uma mulher bonita escutar e dizer sobre ser tão gostosa. Algo chama responsabilidade quando a gente ama.
Naquele dia, quase amarelei – confissões de uma lebiSca com bem mais problemas e inseguranças do que transparece. Quando percebi, porém, ela já tinha me detido deitada e desarmada, sentada sobre minha cintura. Veio me beijando num ataque, não tive tempo para pensar nada.
No máximo, “eita”... E abracei aquela cintura.
Taí, um dia me
perguntaram como funciona isso entre mulheres. Boba questão. Não tem grande dificuldade, nada de mágico além de quando há a mágica da paixão e
da vontade. O resto se ajeita quando você menos espera e talvez até nesses
ataques em que quase se amarela. Meu vô dizia que “bicho depois que pega costume é
difícil amansar de volta” - acho que falava de bicho de criação. Eu não sou
bicho - na verdade, eu sou bicho..., mas ah... não sei dizer se foi questão de pegar costume, sei que realmente não me amanso nunca
mais, não.
Ali, à meia luz de cinco ou seis da tarde, veio aquela umidade que me atiçou o descompasso. Descompensei-me entre as pernas, com ela se arredando um pouquinho para permitir que eu visse o corpo livre de panos. Se não foi das cenas mais bonitas que já vi, não contem comigo para dizer sobre mais nada: as linhas e texturas expostas, sombras e luzes batendo de lado, a cintura se esticando, as marcas brilhando, a pele me convidando, a maciez que eu tocava em formatos curvos e eu ajudando a tirar o pouco que ainda a cobria... A exposição daquele corpo que me eriçou, me perdi em mordidas e beijos.
Aí eu fui dizer, ou pelo menos pensar – mais uma vez, não sei, não dá para saber muita coisa quando agitada assim – um “nosso Deus... perfeita”. Claro, também mais algumas certas palavras e toques; alguém por aí irá dizer que é heresia ter usado nome de Deus nessas horas, eu sei. Eu prefiro largar para lá e contar que, depois disso, ainda devo ter exclamado mais santíssimos nomes alguma vez no meio de palavrões, quando ela me revirou também – glória. Exclamei, peguei, apertei, virei, pus por baixo, tive por cima, para todo lado ela me puxou e tudo me abençoou - que palavra! Mas cabe. Da parte mais brilhante senti o desejo feminino que escorregava, me atiçava. Ergui o braço para puxar para perto um corpo perfeito, reencaixar as vontades. Mudamos de ideia, e línguas de uma ou da outra se misturaram em lábios certos, com nossos pontinhos de prazer.
Prazer... Depois disso foi fluidez de gestos: subiam e desciam, entravam e saíam, de pronto desacelerei e intensifiquei conforme o ar me pedia ou eu pedi. É fato que falávamos pouco naquela época. Todavia o momento me aquecia feito chaleira com gotas de vapor. Qualquer maciez arredondada encontrava abrigo e perigo de satisfação da falta (encaixe perfeito) em mãos agitadas, e arranhados leves na nuca prenunciavam os gemidos que me empolgavam. Suspirei em montes macios porque na delícia de brincar com uma pérola semi-enrijecida e animada eu me encharquei no oceano. No meu próprio também.
A essa altura eu estava morrendo de sede – ávida, desesperada com os lábios pulsando. É que dentro do quarto a fricção nos esquentou sem queimar. A gente descobriu, depois, que lá fora começou a chuviscar; mas eu me arrepiei e molhei quando a janela estava fechada. E a porta aberta: sem medos, sem presenças santas. Era agora a minha boca que ofegava. Calmos sussurros. Menos calmos. Pedidos. Prazeres leves. Agora fortes. Agora... Ai. Ai, Deus. Puta merda... ! ...! ... ... !
Mais heresias.
Foi num desses dias que descobri qual era a melhor maneira, nessa vida inteirinha, de se ter câimbra; isso da mesma forma que, alguns tempos e vezes depois, descobri qual a melhor maneira de me sufocar. No calor de alguém. (Se eu morresse sufocada ali, morreria feliz). E o dela... Ela...
Fiquei meio tremendo, não sei se ela percebeu, eu era ainda fraca de passados. Quando tinha ainda medo, meu psicólogo citou Caetano e disse que eu seria feliz quando me deixasse amar tranquila, eu e “uma tigresa” por aí. Nos olhos macios depois encontrei um amor que me pediu que a segurasse num abraço, e a segurei. Segurei para calar o desamparo, a fragilidade pós fluidos, que ambas sentimos na exposição de corpos ao vento. No silêncio nos aparamos. Por longos momentos abracei e assegurei carícia àquele corpo quente que – ao contrário do que pregam aqueles que falam da necessidade da peça para o encaixe – se encaixava perfeitamente no meu; e também me segurava. No carinho do enlaçar de uma cintura beijei ombro, cabeça, cabelo, pescoço e colo. Rosto. Respirei aquela mulher com o afeto do que era certo. Do que poderia ter sido melhor eu sabia que iria poder e querer fazer de novo; de todo o resto, tão maravilhoso, eu agora tinha memórias inapagáveis. Sofri muito por causa delas.
Os peitos continuavam nus, e nos abraços de descanso ela era uma mornura humana melhor que qualquer cobertor. Acho que eu também pude ser o mesmo para ela. Em raridade disfarcei lágrimas algumas vezes, e ela também chegou a fungar de olhos cheios; no geral éramos opostas, e o contrário também desses casos. Carregamos resquícios da complicação que é a vida.
A mão que em momentos
agitados ia por dentro, em outras horas só trazia afetividade quieta, com
cuidado e cuidando. Os sorrisos se apresentavam e a boca insinuava um pedido
por copo d’água – dessa vez estou falando de sede comum – ou um delivery. Dei graças a Deus por finalmente poder trocar as vontades
naquele ataque duma deusa excitada, mas muito mais eu senti e explodi o peito em meiguice, dengo, afeto, amor. Se existisse uma Nossa Senhora das Lésbicas
ela certamente estava olhando por mim, não tinha outra explicação; talvez fosse
Madalena ou Lilith, ou Iansã e Oxum, ou uma deusa universal. E nessas tais
dessas atitudes que chamaram heresia eu fui e sou feliz. Alguns espumam raiva. Eu tive o melhor presente de minha vida.
E ah... não vou pedir perdão a ninguém ou ao Alguém, não por isso. Que prazer de lésbica vai ser sempre provocação, falas de divindades. Eu perdi a minha. Mas vivo por aí.
Ass.: lebiSca.

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