Véspera do dia primeiro
[21:05]
Daqui a 12 horas fará 21
anos desde o dia em que saí berrando duma cesárea (a teimosia começou desde o
momento de nascer; os pés pra baixo, "não viro, não viro e não viro. Se
quer me tirar daqui, vai ter que ser rasgando") e descobriram que eu era
branca igual a um papel, muito cabeluda para um recém-nascido, tinha na época o
cabelo preto preto preto e era "a cara do meu pai".
Nos primeiros meses
tive muita cólica. Meu pai virava a noite me pegando no colo e balançando,
andando de um lado para o outro: "faltava fazer buraco no chão de tanto
andar em círculo", eventualmente eu dormia. Minha mãe, atenta, um olho aberto o outro fechado, se chegasse perto do berço acordava.
Tirando isso, não dei muito trabalho... Só mantinha a
teimosia - em certa idade, se me punham no berço que ficava ao lado da cama de
minha vó, lá eu não ficava de jeito nenhum: como um lado dele não dava altura
direito e era o que se voltava para a cama, eu saía por lá e ia me arrastando para
cima da minha vó. Queria era deitar com ela. Aí já era. Me punha lá de volta,
eu voltava. Punha, eu voltava. Punha, voltava.
Por fim, vô Geraldo falava "deixa, bem, que ela não quer
ficar lá de jeito nenhum. Se não quer, não quer".
Não tinha paciência para brincadeiras: ficava irritada
quando meu pai brincava comigo e mordia, batia, babava ele desdentada. Também
chorava quando ele começava a cantar (a não ser que eu estivesse passando mal,
e mesmo assim dependia) numa crítica mais eficaz que The Voice Brasil.
Ele cantava, eu chorava. Ele parava, eu parava. Voltava a
cantar, eu voltava a chorar... “Sou assim tão desafinado?”. Ele só sabia cantar
duas músicas, duas e uma terceira que ele inventou para mim. Até hoje só sabe
essas.
Passei 9 meses estranhos e depois aprendi a andar; meio
batatuda e aos tropeços, rapidinho peguei o jeito. A essa altura meu cabelo já
tinha tamanho para formar cachos - eu era cacheada, acredite quem quiser - e eu
roubava qualquer controle remoto que tivesse a vista. Seria engraçado forçar a
barra numa metáfora e dizer que a mania de controle começou aí, né. Mas eu só
gostava dos botões, mesmo. Todo mundo mexia, eu queria mexer.
Quando aprendi a correr, queria apostar corrida e pedia para
meu pai correr sério – “mas sério mesmo, pai, não quero que finge”. É, eu
levava as brincadeiras muito a sério e queria competir de verdade – mais uma
vez, igualzinha ao pai – e... Ele me enganava.
Depois, as jantas insistentes na frente da TV, as três
últimas colheradas, a escolinha, livros de mamãe, o primeiro selinho infantil, o carrinho de
controle remoto – de Ferrari – que meu
pai colou uns adesivos de flor - sei lá porquê -, e eu estraguei no quintal.
Teve o velotrol, a escola, os tombos, os irmãos mais velhos, sei lá o que mais
de choro e nariz escorrendo, lagarta no pote, cachorro no colo, rabicós nos dedos, bater de cara na porta de vidro do banheiro.
Aí a vida seguiu...
Né?
Não lembro muito bem como, mas acabei aqui com 21 anos,
sentada sozinha na mesa da copa, numa república em São João Del Rei, as mãos
com cheiro de cebola porque cozinhei,
pensando nos capítulos de um romance que quero escrever, bebendo
cerveja, desejando que a mulher que eu amo estivesse aqui para que eu pudesse
dar uns beijos quentes e perdidos de amor e desejo. Provavelmente só vou
conseguir dormir lá para as três e meia da manhã.
Minha mãe me mandou mensagem. Amanhã volto para os abraços de meus pais em Belo Horizonte.
Depois disso tudo, talvez fosse mesmo maldade eu não voltar.
Ass.: lebiSca em 28/02/2021 . Véspera do meu aniversário de 21 anos
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