Já me disseram que tudo começa no princípio; também disseram que princípios não se constroem em mesa de bar; como disseram que se constroem, sim. Ora, já me disseram coisa para caralho, com o perdão da palavra. E, no fim, decidi que quem diz e faz sou eu: e do meu jeito. Imprimo meu ser e assino. Assinado eu, assinado quem?! Somos seres assinantes, e enquanto nomes, para mim, às vezes são apenas e somente nomes, outras vezes são muito mais que isso. Se analiso discursos, nem sempre conheço tudo o que encontro; porém, quando é necessário, me procuro.

Na época em que matutava criações escritas e uma assinatura, em mesa de bar ouvi pela primeira vez algo que me caiu como uma luva. No terraço do Maletta, eu estava em fase boa: muitos planos, um fósforo aceso no peito, prestes a mudar de cidade (não sabia ainda, mas me aguardavam algumas noites frias do curso noturno ou alegrias da bochecha vermelha com o álcool no forró). À minha frente, algumas amizades e uma comanda cheia – preocupante!. O ar cheirava a molho. Ao meu lado se sentava meu dengo. 

- Foi engraçado, olha só...

Surgiu no engraçado e depois tornou-se um pouco mais complexo, mas bonito. Quem falava...

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Véspera do dia primeiro

 

[21:05]

 

 Daqui a 12 horas fará 21 anos desde o dia em que saí berrando duma cesárea (a teimosia começou desde o momento de nascer; os pés pra baixo, "não viro, não viro e não viro. Se quer me tirar daqui, vai ter que ser rasgando") e descobriram que eu era branca igual a um papel, muito cabeluda para um recém-nascido, tinha na época o cabelo preto preto preto e era "a cara do meu pai".

 Nos primeiros meses tive muita cólica. Meu pai virava a noite me pegando no colo e balançando, andando de um lado para o outro: "faltava fazer buraco no chão de tanto andar em círculo", eventualmente eu dormia. Minha mãe, atenta, um olho aberto o outro fechado, se chegasse perto do berço acordava.

 Tirando isso, não dei muito trabalho... Só mantinha a teimosia - em certa idade, se me punham no berço que ficava ao lado da cama de minha vó, lá eu não ficava de jeito nenhum: como um lado dele não dava altura direito e era o que se voltava para a cama, eu saía por lá e ia me arrastando para cima da minha vó. Queria era deitar com ela. Aí já era. Me punha lá de volta, eu voltava. Punha, eu voltava. Punha, voltava.

 Por fim, vô Geraldo falava "deixa, bem, que ela não quer ficar lá de jeito nenhum. Se não quer, não quer".

 Não tinha paciência para brincadeiras: ficava irritada quando meu pai brincava comigo e mordia, batia, babava ele desdentada. Também chorava quando ele começava a cantar (a não ser que eu estivesse passando mal, e mesmo assim dependia) numa crítica mais eficaz que The Voice Brasil.

 Ele cantava, eu chorava. Ele parava, eu parava. Voltava a cantar, eu voltava a chorar... “Sou assim tão desafinado?”. Ele só sabia cantar duas músicas, duas e uma terceira que ele inventou para mim. Até hoje só sabe essas.

 Passei 9 meses estranhos e depois aprendi a andar; meio batatuda e aos tropeços, rapidinho peguei o jeito. A essa altura meu cabelo já tinha tamanho para formar cachos - eu era cacheada, acredite quem quiser - e eu roubava qualquer controle remoto que tivesse a vista. Seria engraçado forçar a barra numa metáfora e dizer que a mania de controle começou aí, né. Mas eu só gostava dos botões, mesmo. Todo mundo mexia, eu queria mexer.

 Quando aprendi a correr, queria apostar corrida e pedia para meu pai correr sério – “mas sério mesmo, pai, não quero que finge”. É, eu levava as brincadeiras muito a sério e queria competir de verdade – mais uma vez, igualzinha ao pai – e... Ele me enganava.

 Depois, as jantas insistentes na frente da TV, as três últimas colheradas, a escolinha, livros de mamãe, o primeiro selinho infantil, o carrinho de controle remoto – de Ferrari –  que meu pai colou uns adesivos de flor - sei lá porquê -, e eu estraguei no quintal. Teve o velotrol, a escola, os tombos, os irmãos mais velhos, sei lá o que mais de choro e nariz escorrendo, lagarta no pote, cachorro no colo, rabicós nos dedos, bater de cara na porta de vidro do banheiro.

 

 Aí a vida seguiu...  Né?


 Não lembro muito bem como, mas acabei aqui com 21 anos, sentada sozinha na mesa da copa, numa república em São João Del Rei, as mãos com cheiro de cebola porque cozinhei,  pensando nos capítulos de um romance que quero escrever, bebendo cerveja, desejando que a mulher que eu amo estivesse aqui para que eu pudesse dar uns beijos quentes e perdidos de amor e desejo. Provavelmente só vou conseguir dormir lá para as três e meia da manhã.

 Minha mãe me mandou mensagem. Amanhã volto para os abraços de meus pais em Belo Horizonte. Depois disso tudo, talvez fosse mesmo maldade eu não voltar.

 


Ass.: lebiSca em 28/02/2021 . Véspera do meu aniversário de 21 anos



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