Piquenique com coquetel
Não gosto de bolo de fubá. Nem de milho. Nem olho para as receitas - não quero vê-las de novo. Gosto de café sem açúcar – não mascaro nada além do necessário. Aqui, quem quer sentir, sente, quem quer entender, entende: para bom entendedor, meia palavra basta. Como numa conversa de piquenique atravessada por alguma ferpa.
Do piquenique, existem dois tipos. Os itens são similares, o contexto é diferente. Com amor, é lindo: eu e ela, naquele dia, não comemos desses bolos; mesmo que na
rodoviária, depois, eu tenha tomado um café. Foi assim: almoço, bar, praça, rodoviária,
solidão temporária (no máximo quinze dias...). Alguém - as duas - iam para outra
cidade, ela queria testar um piquenique. Fizemos. Uns biscoitos, algo super processado, suco, uma garrafa - de rolha -, um pano no chão, ar
livre para respirar, carinhos. Tiramos duas fotos muito bonitas. Senti muito
amor e carinho no peito. Esse foi dos piqueniques calmos.
Na época conseguia com mais facilidade não pensar no caos. É que o instituto mor pelo que deram nome ao país dificulta. Não se apetecer da ordem é um problema próprio da arte. Aquele dia era dia de época boa; digo, boa de
tudo, não, porque já muito havia de vermes infestando nossos discursos e comendo podres poderes e execuções boas - ops! lapso. Executivos - bons nos faltavam. Mesmo a parte isso, na rua toda a porcaria de sempre acontecia e me inspirava asco as relações infestadas de horror. Ao menos ainda me cabia a manifestação, via pressão e eu tinha esperança. Era melhor que o caos e as mortes do trancamento de agora, impotente pelo desespero de extermínios, sejam do que é novo ou do que já acontecia.
Mas não! Negue: aquele foi um dia feliz; felicidade de quem não prevê o futuro, de quem pode sentar na praça. Roçar a mão na grama do chão. Falar à vontade com a cara livre. Ver quem quiser. Ingenuamente não se preocupar. Sentar em bar – acho que, esperando ela chegar e antes de irmos para a praça, tomei mais uma. Beijar e abraçar sem medo - isso era mesmo bom. Pegar ônibus na rodoviária com paz no coração, sem doença. Aquela época foi há um ano atrás, acho eu; e se for, então tivemos mais seis meses antes do apocalipse. Eu e ela tivemos encontros macios, alegrias. Tudo flutuava pelo vento. Eu sorria bastante, chorava bastante, mas pelos motivos certos; dançava forró, andava de bobeira. Água fresca e sol na cara, muito amor no peito (não deixe o amor morrer, não; continua desperso pela vida, gigante). Beijei a boca daquela mulher com calma sáfica e consciente, calma que não tenho há tempos... Ah. Mesmo assim, era pouco: me restavam desejos de incendiar tudo a la molotov, eu, tão desejante...
No piquenique, tinha pano, garrafa, eu não cheguei a acender meu cigarro mas tinha sempre um isqueiro, vá saber. Fiquei pensando nessas coisas. São mesmo muito boas, principalmente quando se unem. Esse ardor no peito, vontade de cuidar da vida. As vezes é preciso certa agressividade para revolutar. Penso o que já pensei com ela, também; a gente que é mulher carrega amor da luta e luta do amor. Da vida. Não há quem não queira um... Piquenique... com pano, garrafa - daquelas -, uns inflamáveis dos de acender cigarro, é claro. Ando precisando muito disso, essas combinações prazerosas pela vida de que explode algo que vai contra ela.
Transfiguro a saudade do passado no ódio do presente: pano, garrafa, rolha, isqueiro, coisas nesse campo semântico tão fogoso, e que piquenique revolucionário se faria no meu peito com tudo isso unido, de novo! Fazer sentido não me faz maior sentido (repetição necessária no momento, já que se repete a estupidez daqueles que nos matam) do que lançar um grito. Um sentido que ameaçasse o tal Bolo Raro de porcarias que envenenam quem engole e todos os cães e porcos e bois de estimação. É da ordem do matadouro que fiquem se alternando entre suásticas e negacionismos, infartando saúdes...
Retomar "piqueniques" ardorosos seria (será... está sendo... há de ser...) delicioso. Não teria sabor de bolo de fubá! Nem de qualquer receita mal feita... Ou jornais manchados. Vi gente na Fernão
Dias, avenida pequena para a dor que carregava; esses sim sabem de um bom uso para piqueniques, seus panos e suas garrafas de rolha. Trago no meu semblante algo d'uma lebiSca exausta, escrevo muito sobre amor enquanto também sinto muito ódio,
muita dor. É triste viver com medo - como somos quase obrigadas - mas é no quase que se encontra a coragem da resistência, flor do asfalto, mulher molotov cansada de idiotas espertalhões, mentirosos fascistas, autoritários covardes, seguidores egoístas - solta a verbo, que no início é sempre o verbo que tem potencial criador!
Para criar, desmanchar, desmontar e refazer pelo sujeito autônomo que arde de amor e raiva pelas coisas certas, que se defende junto ao outro, à outra que se lhe arma. E nessa mancha sinto saudade de sair. Aliás, acho que deveríamos marcar um - você sabe. Que seja de máscara. Alguém leva os líquidos. São tão importantes, é
evidente, e eu posso ajudar com algumas garrafas; os panos são indispensáveis,
é claro. E para evitar problemas cada um leva seu acendedor de cigarro – o
Brasileiro não tem mais pulmão, mesmo. Se fizer direitinho, no fim, como se diz por aqui, “chucha
tudo junto” e que se exploda o capitão, roda a roda viva.
Falei demais? Então está ótimo. Clima de "piquenique" agora, só se for assim: pique de alma latina enfurecida que queima contra falsos níqueis.
lebiSca exausta.

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