O dia do leite
Há lembranças de apertos que prefiro guardar como risos. Acredito que era mês de março, talvez abril. Dormi lá sob qualquer justificativa dengosa; no fim, quase me derramei na mesa errada e tive que ir buscar o leite derramado.
- Fiz nada... E posso fazer nada...
Vamos do começo. Imagine que você esteja no início de um relacionamento, passando pelos, ao mesmo tempo, novos e velhos caminhos desse processo. Assim, sabe, os lindos e afiados – cheios de flor de cacto – caminhos de um amor novo. E vá lá a sapatão: tudo maravilhoso, você esquece de se preocupar. Não que não seja de fato assim, até hoje continuo achando que muito ainda é.
Beijos que vão e que vem, abraços e chamegos, boca e filme. “Você não trouxe pijama?” foi o que disse, me olhando com lábios semiabertos de quem não entendeu nada, suas sobrancelhas duvidando de minha ingenuidade. “Não”, respondi, simplesmente.
“Uai”.
E depois me deu um dos dela. Me senti estranhamente leve, roçada pelo algodão macio, agradavelmente feminina, lesbicamente pronta para dormir ao seu lado. Ótimo. Eu só não tinha calcinha para trocar, “mas tudo bem dormir com tudo ao vento por hoje”.
Acordei algumas horas antes que ela, como de costume. Dizem que eu não durmo, eu já acho que durmo demais, mas durante o dia e, às vezes, durante as conversas.
Como nesse dia.
Quando finalmente a mulher acordou, fomos
para a mesa do café, e lá estava: família. Me retraí. Não bastasse, ela se
retirou por um momento, dizendo que já voltava.
- Você é amiga dela né?
Amiga?
Ah. Sim, sim! Grandes amigas. Amigas até na hora do prazer, de tão amigas. Bom, eles não podiam saber do relacionamento ou disso. Me ofereceram leite para pôr no café, recusei polidamente.
- Prefiro puro. – sorri – Mas sou, sim, amiga, a gente se conhece de...
- Você também faz História? – o curso.
- Não, na verdade eu ainda ‘tou tentando passar para psicologia.
Houve um breve silêncio - que não entendi.
- Ah. Psicologia é legal.
- É, sim. – cacete, onde a menina tinha se enfiado? Me deixar sozinha lá assim... Que ida ao banheiro demorada. Passei o dedo ao redor do copo – bom, eu acho, né?
- E você quer passar na federal também?
- Tentar, né, acho que consigo esse ano, vamos ver.
- Consegue sim.
- É...
As faces do ar estranho. Eu era uma ilustre desconhecida – afinal, que amiga é essa que nunca vi? E todo o resto dos momentos constrangedores de uma invasora de café da manhã... Uma que sequer sabiam que estivera dormindo ali, até aquele momento. Pois era isso: e o papo ia morrer, houve mais um breve silêncio, estava eu, a tia, a vó, o vô, e mais alguém que não me lembro. Cadê você, amor?
Tentei fazer um gracejo...
( - Bom... Se ainda tiver universidade pública até lá, né, porque com esse presidente de merda e no ritmo que as coisas vão... )
... e cavei minha cova – como percebi ao fim da frase. O ar se tornou tensão, dois rostos desviaram o olhar fixo para o pão e outros dois se fecharam; eu podia ouvir a colher da tia mexendo o achocolatado com a mesma clareza que sentia na pele as gotículas de hostilidade e o desconforto.
Ih,
merda.
No desespero, mudei de ideia sobre o leite.
- Eu... Vou ali na cozinha pegar o leite... viu?! – e saí.
Fiquei lá, virando o leite - quase a conta gotas - no copo, na tentativa de adiar ao máximo meu retorno e principalmente que não voltasse para lá sozinha de novo. Esperei que a amada aparecesse.
“Aleluia”: apareceu ao meu lado. Numa trocadilho escatológico pensei que não sabia qual cagada fora mais penosa, a dela ou a minha.
- Oi... – chamei num gesto de cabeça, ela se aproximou, sussurrei: - você não me disse que sua família era Bolsonaro.
- ... O quê que ‘cê fez, Débora?
Dei de ombros e sorrimos ambas... de
nervoso.
Ass.: lebiSca.

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