Já me disseram que tudo começa no princípio; também disseram que princípios não se constroem em mesa de bar; como disseram que se constroem, sim. Ora, já me disseram coisa para caralho, com o perdão da palavra. E, no fim, decidi que quem diz e faz sou eu: e do meu jeito. Imprimo meu ser e assino. Assinado eu, assinado quem?! Somos seres assinantes, e enquanto nomes, para mim, às vezes são apenas e somente nomes, outras vezes são muito mais que isso. Se analiso discursos, nem sempre conheço tudo o que encontro; porém, quando é necessário, me procuro.

Na época em que matutava criações escritas e uma assinatura, em mesa de bar ouvi pela primeira vez algo que me caiu como uma luva. No terraço do Maletta, eu estava em fase boa: muitos planos, um fósforo aceso no peito, prestes a mudar de cidade (não sabia ainda, mas me aguardavam algumas noites frias do curso noturno ou alegrias da bochecha vermelha com o álcool no forró). À minha frente, algumas amizades e uma comanda cheia – preocupante!. O ar cheirava a molho. Ao meu lado se sentava meu dengo. 

- Foi engraçado, olha só...

Surgiu no engraçado e depois tornou-se um pouco mais complexo, mas bonito. Quem falava...

...CLIQUE AQUI PARA LER A CRÔNICA DE ABERTURA E PRINCÍPIO DA LEBIsCA

Imagem frágil

 

- Lacan, seu filho da puta. - e disse isso sentada à mesa, lendo ou pensando; me olharam sem entender. 

Mais tarde, falei de novo, mas foi nua em frente ao espelho. Em certo tempo a mulher que eu amo teria dito que sou linda e mais algumas intimidades, eu teria sorrido sem jeito e lhe beijado com calor; não era a beleza o ponto... Mas o eu. Apesar do que, esse mesmo eu com ela é de mais beleza.

Meses atrás, num pulo de quase um ano – que ano... – e numa desanuviação mais ingênua que arrogante, eu fiz as pazes com o espelho; ou não cheguei a isso, mas ao menos com o fato de o espelho quase não me reconhecer mais. Bom sinal. Nem eu a ele... Mudei, sorria mais, parecia outra mulher e mais mulher do que caco; vidro; pedaço de reflexo quebrado. Parecia mais o ser do que isso... Mas era apenas uma reflexão do eu.

Depois de muito falar e falar e achar que tudo tinha falado, me responderam:

- Quê?

Encasquetei com minha falta didática e minha burrice.

- Deixa para lá, não entendi o suficiente para explicar melhor.

- Mas ele é mesmo um filho da puta?

Ri. "Deixa". E pensei nessa desanuviação de um ano atrás em que me lancei, quando aceitava mais as bobagens que fazia, os erros, a face do azar sortudo de viver e viver apaixonada, viver meus erros e fraquezas, feliz. Que glória. Onde estava?

- Eu amei o texto do espelho – meu amor me disse no ano passado.

Na época, postei de imediato; afinal, eram dois parágrafos e um travessão, parecia bom. Mentira. A verdade: afinal, ela havia amado. E nós gostamos de amor. 

Amor...

Nesses últimos dias chorei embolada em mim, nua e quebrada como vidro, mas no dia – mais recente – que disse “ah, filho da puta...”, fiz aquela coisa de me lembrar que, para chegar lá na tal desanuviação, fora necessário desmanchar meu espelho várias vezes. 

Ontem desmanchei mais um. No meu ser de imagem frágil, estou sempre desmanchando espelhos. Só assim posso, como naquele dia, dizer abraçar meu coração antes de dormir, meu coração errador imperfeito – completamente amador nas suas buscas. Ao invés de chorar agarrada com minha nudez, sorri por tranquilidade de ser humana e fazer m...rda. Entende quando começa como desespero e termina como paz?

Quebrar espelhos para se olhar de novo... É. E depois, recebo os beijos dela de toda forma, cabelo, corpo e surto de lágrimas que tenho, então deve ser algo mais. Quando o espelho – ou o eu no espelho – quase não me reconhece, eu então digo para minhas entranhas: ainda bem. No meio disso sangra uma mão que se cortou no murro contra o vidro. Mas é isso. Dizem que faz parte.

Toda vez que me olho no espelho, sou uma frágil imagem que é mais afável se vejo um amor comigo: fico melhor unida a um corpo semelhante. A reflexão da imagem do amor é a única que parece verdadeira e não alienada – e eu não ligo (ligo sim) se estiver errada, sou poeta (e pisciana, e ansiosa, e louca, e estudante.)(Tudo bem).

- Você gosta desses espelhos de motel? Eles têm espelho no teto.

- Hm, talvez. 

Fotos, observações, e continua:

- Será que é muito coisa de Narciso?

- Sei lá. Vamos?

Depois do murro ou do desmanchar da minha imagem me arranjo um espelho novo, que é o mesmo que o antigo – intacto –, mas me acolhe bem nessa nova forma. A dor “nem machuca” enquanto existo em paz com meu sangue nos dedos e tudo do que sou fora e dentro.

Contei para a dona do amor todos os meus defeitos espelhados ou das entranhas e quantos dias demorei para fichar um único texto de um filho da puta explicando o filho da puta. Chorei outros fracassos, e ouvi da voz doce dela:

- Mas ‘tá tudo bem. ‘Tá tudo bem, amor.

Meu espelho não diria isso; aliás, uns meses ou ano atrás diria, mas estragou, atrofiou e hoje não diria mais – minha imagem se transformou e ele não foi junto. Como ontem o desmanchei, agora ele pode dizer. Eu acho...

Quando fui reformar minha imagem, avisei:

- É imperfeita.

- O que sabe?

- Sei lá. Sabe respirar.

- Maravilha!!

Pois é. Saí da mesa de almojantar – onde estudava e xingava – mais tranquila, larguei o texto para revisar depois. No fim, minha fragilidade não importava tanto quanto meu peito, e o espelho dos meus olhos deve me bastar.

- Mas você não tem como se ver por completo sem um espelho, ..., nem consegue se ver com ele – alguém pontuou.

Exatamente. Ainda bem (de novo). ‘Cê conhece o desespero de querer o completo?

Ass.: lebiSca.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Princípio

Da fantasia

Confessei na mesa de bar