Imagem frágil
- Lacan, seu filho da puta. - e disse isso sentada à mesa, lendo ou pensando; me olharam sem entender.
Mais tarde, falei de novo, mas foi nua em frente ao espelho. Em certo tempo a mulher que eu amo teria dito que sou linda e mais algumas intimidades, eu
teria sorrido sem jeito e lhe beijado com calor; não era a beleza o ponto... Mas
o eu. Apesar do que, esse mesmo eu com ela é de mais beleza.
Meses atrás, num pulo de quase um ano – que ano... – e numa
desanuviação mais ingênua que arrogante, eu fiz as pazes com o espelho; ou não
cheguei a isso, mas ao menos com o fato de o espelho quase não me reconhecer
mais. Bom sinal. Nem eu a ele... Mudei, sorria mais, parecia outra mulher e mais
mulher do que caco; vidro; pedaço de reflexo quebrado. Parecia mais o ser do que isso... Mas era apenas uma reflexão do eu.
Depois de muito
falar e falar e achar que tudo tinha falado, me responderam:
- Quê?
Encasquetei com minha falta didática e minha burrice.
- Deixa para lá, não entendi o suficiente para explicar
melhor.
- Mas ele é mesmo um filho da puta?
Ri. "Deixa". E pensei nessa desanuviação de um ano atrás em que me lancei, quando aceitava mais as bobagens que fazia, os erros, a face do azar
sortudo de viver e viver apaixonada, viver meus erros e fraquezas, feliz. Que glória. Onde estava?
- Eu amei o texto do espelho – meu amor me disse no ano
passado.
Na época, postei de imediato; afinal, eram dois parágrafos e um travessão, parecia bom. Mentira. A verdade: afinal, ela havia amado. E nós gostamos de amor.
Amor...
Nesses últimos dias chorei embolada em mim, nua e quebrada como vidro, mas no dia – mais recente – que disse “ah, filho da puta...”, fiz aquela coisa de me lembrar que, para chegar lá na tal desanuviação, fora necessário desmanchar meu espelho várias vezes.
Ontem desmanchei mais um. No
meu ser de imagem frágil, estou sempre desmanchando espelhos. Só assim posso,
como naquele dia, dizer abraçar meu coração antes de dormir, meu coração
errador imperfeito – completamente amador nas suas buscas. Ao invés de chorar
agarrada com minha nudez, sorri por tranquilidade de ser humana e fazer
m...rda. Entende quando começa como desespero e termina como paz?
Quebrar espelhos para se olhar de novo... É. E depois,
recebo os beijos dela de toda forma, cabelo, corpo e surto de lágrimas que tenho,
então deve ser algo mais. Quando o espelho – ou o eu no espelho – quase não me
reconhece, eu então digo para minhas entranhas: ainda bem. No meio disso sangra
uma mão que se cortou no murro contra o vidro. Mas é isso. Dizem que faz parte.
Toda vez que me olho no espelho, sou uma frágil imagem que é
mais afável se vejo um amor comigo: fico melhor unida a um corpo semelhante. A
reflexão da imagem do amor é a única que parece verdadeira e não alienada – e eu
não ligo (ligo sim) se estiver errada, sou poeta (e pisciana, e ansiosa, e louca, e estudante.)(Tudo bem).
- Você gosta desses espelhos de motel? Eles têm espelho no
teto.
- Hm, talvez.
Fotos, observações, e continua:
- Será que é muito coisa de Narciso?
- Sei lá. Vamos?
Depois do murro ou do desmanchar da minha imagem me arranjo
um espelho novo, que é o mesmo que o antigo – intacto –, mas me acolhe bem
nessa nova forma. A dor “nem machuca” enquanto existo em paz com meu sangue nos
dedos e tudo do que sou fora e dentro.
Contei para a dona do amor todos os meus defeitos espelhados
ou das entranhas e quantos dias demorei para fichar um único texto de um filho
da puta explicando o filho da puta. Chorei outros fracassos, e ouvi da voz doce
dela:
- Mas ‘tá tudo bem. ‘Tá tudo bem, amor.
Meu espelho não diria isso; aliás, uns meses ou ano atrás
diria, mas estragou, atrofiou e hoje não diria mais – minha imagem se
transformou e ele não foi junto. Como ontem o desmanchei, agora ele pode dizer.
Eu acho...
Quando fui reformar minha imagem, avisei:
- É imperfeita.
- O que sabe?
- Sei lá. Sabe respirar.
- Maravilha!!
Pois é. Saí da mesa de almojantar – onde estudava e xingava –
mais tranquila, larguei o texto para revisar depois. No fim, minha fragilidade
não importava tanto quanto meu peito, e o espelho dos meus olhos deve me
bastar.
- Mas você não tem como se ver por completo sem um espelho,
..., nem consegue se ver com ele – alguém pontuou.
Exatamente. Ainda bem (de novo). ‘Cê conhece o desespero de
querer o completo?
Ass.: lebiSca.


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