Já me disseram que tudo começa no princípio; também disseram que princípios não se constroem em mesa de bar; como disseram que se constroem, sim. Ora, já me disseram coisa para caralho, com o perdão da palavra. E, no fim, decidi que quem diz e faz sou eu: e do meu jeito. Imprimo meu ser e assino. Assinado eu, assinado quem?! Somos seres assinantes, e enquanto nomes, para mim, às vezes são apenas e somente nomes, outras vezes são muito mais que isso. Se analiso discursos, nem sempre conheço tudo o que encontro; porém, quando é necessário, me procuro.

Na época em que matutava criações escritas e uma assinatura, em mesa de bar ouvi pela primeira vez algo que me caiu como uma luva. No terraço do Maletta, eu estava em fase boa: muitos planos, um fósforo aceso no peito, prestes a mudar de cidade (não sabia ainda, mas me aguardavam algumas noites frias do curso noturno ou alegrias da bochecha vermelha com o álcool no forró). À minha frente, algumas amizades e uma comanda cheia – preocupante!. O ar cheirava a molho. Ao meu lado se sentava meu dengo. 

- Foi engraçado, olha só...

Surgiu no engraçado e depois tornou-se um pouco mais complexo, mas bonito. Quem falava...

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Estava difícil sonhar...

E inda assim eu sonhei, porque parece que estão deixando. 

Agora as notícias correm. Leio textos e textos. Esses dias vi uma ingenuidade encarnada dizendo que uma mula de faixa verde e amarela conseguia urrar um debate melhor do que um certo Ex. De todos nós, viu? Aquele “ex” que você está pensando... Graças a Deus ele anuncia volta.

Ao fundo de minha cabeça, tocava a música que eu conseguia já ouvir de antecedência; aquela de quando picassem essa mula e eu pudesse tomar uma cerveja feliz (uma de gente vacinada). 

Vacinada contra tamanha ignorância, o que fiz foi rir comigo mesma do destro da internet. Deve estar lá até agora, falando bobagens, abanando o rabo para alguém lá do planalto. Com uma cola de quinta série e sem presença em nenhum debate a sério (é o esperado: mula não conversa, mula gosta mesmo é de dar coice, empacar, morder, ou é mula mansa para quem sabe tocar seu rabo). Paciência: paciente eu sou, mas não com isso - que saia fora. 

Não se mencione a covardia... Ou o sadismo. Difícil dizer mais. A situação até agora foi de matar os sonhos até do maior dos sonhadores. Além de matar os sonhos, muito pior: matou mais pessoas do que já morrem. O sonho dos trinta mil que ele disse que o exército não fez... Para os quatro anos de crueldade, pelo menos, não tive esperança – e ainda falta um, isso se tudo der certo e picarmos o pé na bunda da mula. Então falei:

- Olha: veja bem esse “se tudo der certo”! Que belíssima merda: a hesitação no sonho. O brasileiro tem medo até de sonhar. E tem medo de assassinato, de fome, de militarismo, de ignorância, golpe, mentira, manipulação, de dizerem "foda-se", de matar, de morrer... Sei lá...

Hoje, porém, acordei diferente. É que há ares de mudança para esse brasileiro, para a nossa brasileira, para nossos gritos oprimidos. Com medo ou não, agora esses sonham. Pelo menos sonham. Com cuidado, mas sonha, sim, a(o) brasileira(o). E isso é bom. 

Alguma coisa aconteceu de diferente, finalmente. Alguma coisa que não é só mais uma morte ou justiça imbecilizada que não segue suas próprias definições. Alguma prova real de que há, sim, jeito. Isso é bom, isso tudo é bom. Tem uma tal de uma Luís brilhando diferente, mais clara agora; um Inácio no fim dessa história, um conhecido gelu lá no calo do pobre e dos que apanham com soco de direita; para quem nasceu um nadinha Da Silva e se virou, surgiu uma notícia boa. Meio atrasada, a gente sabe bem por quê; mas boa. 

"Estão deixando a gente sonhar". Quem sabe o trazer desse sonho dos corações pulsando, da Brahma gelando em dois mil e vinte e dois, de ver depois disso decisões que fazem sentido na TV, essa possibilidade de reestruturar um abraço no povo e para o povo, de findar os discursos – que fazem diferença, ô como fazem, por virarem atos – odiosos que nesses anos corriam serelepes como se fossem aceitáveis... Quem sabe o trazer dessas faíscas não melhoram a luta?

Eu sonho. E não sou ingênua, não: nem tudo resolve, mas melhora muito, ah, isso sim; e se brilhar uma estrela branca e vermelha, prefiro mil vezes do que uma família de mulas armadas. Já preferiria perante alguns outros, quem dirá contra esse infeliz. Colei adesivos vermelho no peito e nos amigos há três anos e se preciso o farei de novo.

- Imagina só...

- Já disse, se ele tiver que passar essa faixa cara a cara, eu filmo e gravo num CD bem guardado. Foda-se.

E respirei fundo, olhei lá para fora, bem. E, ali na sala, depois dos momentos de atenção e preocupação, dos números, das conversas sociais, dos suspiros e debates; depois, pelo menos nesse finzinho de parte da conversa pós noticiário, a gente sorriu um pouco com as ideias novas. Quero gritar por motivos mais adequados que os atuais distópicos e assassinos que só pioram.

A gente sorriu. Você tem noção que a gente sorriu?!

Um governante que de fato exista, pensante e preocupado, as responsabilidades e humanidades desse país finalmente de volta a alguém que não saia espalhando cocô de mula por aí e que fale e ouça. Consegue imaginar? É só relembrar.

Pelo amor do Amor, companheiros. É que, nunca na história desse país, tanto, tanto eu quis que algo viesse, logo.

Ass.: lebiSca 

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