Da fantasia
Falo de um tempo em que tive minha primeira ida àquela cidade cinza, mas cidade dela. Relacionamento a distância? Para deixar bem explicada a sensação, vou ter que dizer assim, na bruteza: cheguei a Divinópolis com o coração na boca e o cu na mão. Nada mais esperado de uma apaixonada que visite outra.
Ali, na casa de dois médicos que poderiam decidir arrancar meu coração com auxílio de um bisturi, apenas para tentar entender os batimentos cardíacos desta sapato 48 que vos fala... Bom, segui meu coração. Ponhamos de lado as brincadeiras de bisturi dos sogros. Após o "oi", perguntei se eu poderia entrar - com medo da cadela de 20 centímetros que me estranhava. Tive comigo mesma a ideia de que se eu fosse uma má pessoa os cachorros já sentiriam isso com antecedência. Por que me acusar com tanta pressa? Coisa de “101 dálmatas”. Em seguida, fiz nota mental de ir mais à terapia. Não havia motivo algum para me rotular de Cruela Devill, além dos latidos de cães que nunca haviam me visto. Maldita mania de autocondenação do pânico lesbossexual.
-
Deve ser ciúmes.
Devia ser. Entramos. Cumprimentei meus sogros, fui agradável, levei presente – porta-chaves de cidade histórica. Hm? Sim, eu comprei na rodoviária, na hora H de pegar o ônibus. Não me julgue... Eu realmente estava preocupada.
A quietude do pai era quase perturbadora, mas dona Bia era conversativa, e, ainda que – imagino – com certo esforço, foi receptiva, sorridente. Acalmei-me um pouco, afinal era bom estar lá, finalmente: conquistas. Depois, pensei bobagens. Num vice-versa nos desvestimos. Vontades escondidas despertaram por conversas e risos: veio a presença do calor de nudezes que não se viam há muito tempo... Grandes Tês e beijos. Aqueles que dão erro em todo o sistema; bagunça, estoura fluidez dentro do peito. Soltamos os suspiros guardados - ih, fazia já muito tempo guardados, que coisa! –, agora expressos no meio dos corpos apertados, explodindo de amor e... Você sabe.
Foi-se
a saudade, veio a respiração agitada, coração sambista. O amor nos molhou na
privacidade, amenidade ávida que é repouso da vontade no outro.
Depois, o encaixe de conchas no descanso sonolento de nós duas abraçadas. A brisa que entrava pela janela fez nossos pelos arrepiarem.
Eu lá cheia de paz e mornura na alma, sem me
mover, sentindo o cheiro do pescoço dela em minha frente, falei:
- ‘Tô
com frio.
-
Uhn? Também ‘tô um pouquinho.
Silêncio,
respirações macias.
- A
gente devia tomar banho.
- Devia. – mas continuamos paradas.
Preguiça morna.
(Meu Deus, como eu te amo.) Adormeci. Acordei com frio novamente, então levantei
para me vestir e percebi que não havia trazido blusa de frio. Lerda!. De ousadia abri e peguei, no
armário de gavetas, uma blusa dela. Eu lá nem queria mexer muito, mas também
não queria acordar a princesa da casa. Peguei a primeira que vi. Não era exatamente “de
frio”, mas era suficiente. Azul, manga comprida, tecido de algodão – ou de
malha? –, tinha seu cheiro confortável. Vesti.
Quando me viu, expressou uma interrogação meio risonha e um "uai".
- Você ‘tá usando minha blusa?
-
É... Peguei na gaveta, tem problema? Depois eu devolvo...
-
Tá... Você não trouxe blusa?
... O conhecido tom de acabar numa bronca amorosa. “meu Deus do céu, Débora, você tem que arrumar a mala com
antecedência... E se fosse onde não tivesse quem te emprestar?!”.
- De
frio, não trouxe... Esqueci. Mas está tudo tranquilo, eu quase não sinto frio, só
essa aqui dá, ... Depois eu devolvo. – repeti, sem jeito, o conhecido tom de quem se justifica com frases sem fim de quem só quer afeto.
-
Tudo bem, besta. Pode ficar... – rosto perto, mão na cintura, a voz virou aconchegante
– Ficou bonita em você.
Dei
um sorriso tímido, leve. Naquele momento quis beijá-la de novo, mas claro: Dona Bia chegou do
mercado e eu tive que reconstruir (junto da namorada) o cuidado das atitudes
bem vistas e inocentes. Mundo infeliz... Fomos ajudar no jantar. Tomei cuidado para não manchar
a blusinha.
Assim passei o final de semana, tempo em que dormia tranquila e acordava sem pressa... em quarto separado de meu dengo.
Sogros...
De contenção em contenção, chegou a hora de ir embora. Pus na mala, com carinho, a blusinha que havia ganhado. Tudo fechado, prontas para ir, ela disse:
- Esqueci
o protetor solar.
-
Tem um na mala – respondi de prontidão – Pode pegar lá.
Quando
abriu minha mala, viu a blusa.
-
Quê isso?!
-
Isso o quê?
-
Minha blusa... !
-
Uai...
-
Uai digo eu. Você tá levando por que? Tava dando falta. Não avisa?
-
Quê??
-
Essa blusa aqui uai... Você pegou mais algum trem? Se for pegar, tudo bem, mas pede, uai. Sabe que não gosto que pegue minhas coisas.
-
Uai? Quê? Não, quê?
E foi-se mais disso até que finalmente eu dissesse, com beiço de mágoa:
-
Mas foi você que me deu a blusinha...
O ato parou por breve momento.
Parecia resetar o sistema: foi de braveza a
lerdeza em 0.2 segundos. Terminando o carregamento do programa (conheço o
manual de instruções consideravelmente bem), lembrou-se.
- Ah
é.
Assim, simples. Me deu um beijo e um sorriso sem jeito.
Eu? Fiquei achando graça da doida, peguei a mala e desejei mais blusinhas e beijos de lerdeza percebida.
Ass.: lebiSca.

Meu deus puta que pariu QUE ADORAVÉIS.
ResponderExcluirMano vc escreve bem demaaais, da para ver as cenas se desenrolando na minha mente. Eu ri e me diverti muito lendo essa crônica, além de me compadecr dessa experiência importante que é visitar os sogros pela primeira vez.
Amei a sinestesia presente em "Respirações macias" e "preguiça morna" quase pude sentir em minha mente o que você quis transmitir.
Leitura leve e interessante!
Aahahahah muito obrigada!! Saber dessas odentificações e risos me deixam muito muito feliz!!
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