Já me disseram que tudo começa no princípio; também disseram que princípios não se constroem em mesa de bar; como disseram que se constroem, sim. Ora, já me disseram coisa para caralho, com o perdão da palavra. E, no fim, decidi que quem diz e faz sou eu: e do meu jeito. Imprimo meu ser e assino. Assinado eu, assinado quem?! Somos seres assinantes, e enquanto nomes, para mim, às vezes são apenas e somente nomes, outras vezes são muito mais que isso. Se analiso discursos, nem sempre conheço tudo o que encontro; porém, quando é necessário, me procuro.

Na época em que matutava criações escritas e uma assinatura, em mesa de bar ouvi pela primeira vez algo que me caiu como uma luva. No terraço do Maletta, eu estava em fase boa: muitos planos, um fósforo aceso no peito, prestes a mudar de cidade (não sabia ainda, mas me aguardavam algumas noites frias do curso noturno ou alegrias da bochecha vermelha com o álcool no forró). À minha frente, algumas amizades e uma comanda cheia – preocupante!. O ar cheirava a molho. Ao meu lado se sentava meu dengo. 

- Foi engraçado, olha só...

Surgiu no engraçado e depois tornou-se um pouco mais complexo, mas bonito. Quem falava...

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Celulose

 

Hoje só estou conseguindo escrever à mão. Hábitos antigos... Afinal, quando era ainda pequena e insinuei um livro, foi à mão: seis páginas de letras gorduchas usando duas folhas A4 dobradas. Monstros e princesas e muitas palavras erradas manchando celulose. E, hoje, eu aqui... Há dias estou tentando pôr no papel algo que não sai e não sei. Nem falar com meu amor adiantou: ou seja, o fim da picada.

Acabei me sentindo sozinha, então ontem resolvi comprar uma planta para me fazer companhia – sim, uma planta.

No fim, na rua, refleti e pensei demais: tudo por causa das plantas de uma loja e meu reflexo na vitrine. Tudo culpa da arte. A arte é um perigo. Posso me perder nas ideias: “o propósito!... onde?” Tenho medo, ainda, do que pode estar errado aqui. Estou dançando, cada movimento me envolve e meu corpo às vezes não é capaz de produzir mais que suspiros. Da terra veio, produz respiros, e à terra retornarás. Como uma planta.

Ah, sim. Produzir. Ser objetivo:

Ontem olhei para aquela planta, na floricultura; visualizei um jardim. Queria cultivar, mas pá! vi o preço.

- Que lindo! Quanto é?

- (Deu-me o preço).

- Credo. – de repente ficou feio. Que tristeza. Coisas da vida. – Pelo jeito viver é caro.

O vendedor não me entendeu, então veja bem: tudo o que a planta faz é viver, vivendo produz a si ou ao mundo e o movimento do ar e da terra. E ainda ousei dizer hoje que não fiz nada, só “fui uma planta”! Entende? E queriam me cobrar tão caro. Por quê esse preço? Não tive coragem de pedir desconto.

Pensei: qual meu preço para viver? “Eu não tenho preço”. Mas depois me olhei no espelho, sozinha, sem companhia, e minhas mãos e meus olhos tremeram como se tivessem que manter tudo perfeito para um leilão e vissem defeitos. Me reguei, então: alguém tem que se interessar para me comprar nas ideias e pagar o preço do amor.

- Desculpa. Qualquer coisa eu volto mais tarde. Ou outro dia.

Aí você aperta os seios e franze as rugas da barriga. Hoje fiz isso. Como se fosse isso... Então escorrega a unha sobre uma marca e sente a secura de uma lágrima numa insinuação. Senti. Algo está ali, mas não está; algo está apertando...

- Já sentiu isso? – perguntei, chegando em casa. Minha colega de casa disse “não... sim”.

Um gozo que não geme, um choro que não estoura. E eu na vitrine. Por que? Não comprei a planta que o socioeconômico precificou – do nada! – e nem sei plantá-la. Não voltei lá.

Também não sou planta e não produzo – sabe quando os olhos estão tão cansados que parecem diferentes um do outro? Rosto torto, um mais abaixo, um menor, acho que minhas folhas estão caindo. Encarei o espelho sem dinheiro, sem corpo e sem planta, mesmo; derrotada e sem companhia. Queria mais.

Mesmo assim, sou a mulher que outro dia recebeu beijos no pescoço e se arrepiou, sonhei coisas de bicho feito de carne pensando em outra mulher, depois chorei e ontem me perguntaram:

- Tudo bem? Você tá meio...

- Ah... Hoje tô só sendo humana, mesmo. – Assim, “uma bagunça”.

Mas vi algumas dicas de jardinagem. Qualquer dia, vou tentar um jardim... Quem sabe dou flores sem preço para minha guria e para mim.

Ass.: lebiSca.

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