Celulose
Hoje só estou conseguindo escrever à mão. Hábitos antigos...
Afinal, quando era ainda pequena e insinuei um livro, foi à mão: seis páginas
de letras gorduchas usando duas folhas A4 dobradas. Monstros e princesas e
muitas palavras erradas manchando celulose. E, hoje, eu aqui... Há dias estou
tentando pôr no papel algo que não sai e não sei. Nem falar com meu amor
adiantou: ou seja, o fim da picada.
Acabei me sentindo sozinha, então ontem resolvi comprar uma planta
para me fazer companhia – sim, uma planta.
No fim, na rua, refleti e pensei demais: tudo por causa das
plantas de uma loja e meu reflexo na vitrine. Tudo culpa da arte. A arte é um
perigo. Posso me perder nas ideias: “o propósito!... onde?” Tenho medo, ainda,
do que pode estar errado aqui. Estou dançando, cada movimento me envolve e meu
corpo às vezes não é capaz de produzir mais que suspiros. Da terra veio, produz
respiros, e à terra retornarás. Como uma planta.
Ah, sim. Produzir. Ser objetivo:
Ontem olhei para aquela planta, na floricultura; visualizei
um jardim. Queria cultivar, mas pá! vi
o preço.
- Que lindo! Quanto é?
- (Deu-me o preço).
- Credo. – de repente ficou feio. Que tristeza. Coisas da
vida. – Pelo jeito viver é caro.
O vendedor não me entendeu, então veja bem: tudo o que a
planta faz é viver, vivendo produz a si ou ao mundo e o movimento do ar e da
terra. E ainda ousei dizer hoje que não fiz nada, só “fui uma planta”! Entende?
E queriam me cobrar tão caro. Por quê esse preço? Não tive coragem de pedir
desconto.
Pensei: qual meu preço para viver? “Eu não tenho preço”. Mas depois me olhei no espelho, sozinha, sem
companhia, e minhas mãos e meus olhos tremeram como se tivessem que manter tudo
perfeito para um leilão e vissem defeitos. Me reguei, então: alguém tem que se
interessar para me comprar nas ideias e pagar o preço do amor.
- Desculpa. Qualquer coisa eu volto mais tarde. Ou outro
dia.
Aí você aperta os seios e franze as rugas da barriga. Hoje
fiz isso. Como se fosse isso... Então escorrega a unha sobre uma marca e sente
a secura de uma lágrima numa insinuação. Senti. Algo está ali, mas não está;
algo está apertando...
- Já sentiu isso? – perguntei, chegando em casa. Minha
colega de casa disse “não... sim”.
Um gozo que não geme, um choro que não estoura. E eu na
vitrine. Por que? Não comprei a planta que o socioeconômico precificou – do
nada! – e nem sei plantá-la. Não voltei lá.
Também não sou planta e não produzo – sabe quando os olhos
estão tão cansados que parecem diferentes um do outro? Rosto torto, um mais
abaixo, um menor, acho que minhas folhas estão caindo. Encarei o espelho sem
dinheiro, sem corpo e sem planta, mesmo; derrotada e sem companhia. Queria
mais.
Mesmo assim, sou a mulher que outro dia recebeu beijos no
pescoço e se arrepiou, sonhei coisas de bicho feito de carne pensando em outra
mulher, depois chorei e ontem me perguntaram:
- Tudo bem? Você tá meio...
- Ah... Hoje tô só sendo humana, mesmo. – Assim, “uma
bagunça”.
Mas vi algumas dicas de jardinagem. Qualquer dia, vou tentar
um jardim... Quem sabe dou flores sem preço para minha guria e para mim.

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